Estamos no coração de Minas Gerais, a região que engordou os cofres da Coroa Portuguesa no século XVII com ouro e pedras preciosas encontrados nestas montanhas.
Hoje Minas continua a engordar, não só os portugueses mas todos os que a visitam. Feijão tropeiro, torresmos crocantes e leitão à pururuca são só alguns exemplos das iguarias que tornaram a cozinha mineira famosa em todo o mundo. Outro dos pontos altos desta região são as estradinhas de montanha que ligam as pequenas vila e que hoje vamos explorar.
Toda esta riqueza provocou a fundação de várias cidade que coloriram estes montes e vales com pequenos Portugais. Vilas que preservam até hoje uma arquitectura colonial imaculada e lindíssima.
Começámos por Tiradentes, a cidade que homenageia o herói brasileiro que juntava à sua profissão de dentista, a de mineiro, militar, comerciante e activista politico. Foi nesta ultima que se tornou mártir do movimento dos inconfidentes e herói nacional.
Seguimos para Congonhas onde encontramos outra das personalidades da região mineira, O Aleijadinho.
Antônio Francisco Lisboa, era filho de um carpinteiro português e de uma escrava africana. Deve a sua alcunha à Lepra, uma doença que o desfigurou e acabou por o matar. Mesmo debilitado produziu verdadeiras obras primas que embelezam muitas das igrejas da região.
Como é o caso da Via Sacra e os Profetas no Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas onde passeámos demoradamente desfazendo o feijão tropeiro que devorámos ao almoço.
A paragem seguinte foi em Mariana, outra homenagem, desta vez à rainha D. Maria Ana de Áustria, esposa do rei D. João V.
A vila chegou a ser a capital do estado de Minas Gerais por ser a cidade da região que mais ouro produzia, privilégio que perdeu no século seguinte para Ouro Preto.
É precisamente na antiga Vila Rica, actualmente chamada de Ouro Preto que terminamos o roteiro de hoje. A cidade cobre harmoniosamente uma série de morros com casinhas brancas debruadas a cores vivas que ladeiam ruas de empedrado negro.
Classificada como património da humanidade pela Unesco, é uma das pérolas coloniais de Brasil, alojando uma das mais antigas escolas de farmácia do novo mundo (1835) e o mais antigo teatro da América do Sul.
Mas é nas suas igrejas barrocas, algumas delas obra do "Aleijadinho" que Ouro Preto mostra todo o seu esplendor.
Terminamos o dia numa das principais praças, devorando uns torresmos crocantes acompanhados por cerveja gelada. Foi um dia duro, com poucos quilómetros mas com muita coisa para ver.
A animação nocturna está a começar e como há que fazer um reconhecimento complecto, vamos lá conhecer a noite académica da cidade.
Acordámos com um cheiro intenso a café acabado de fazer. As frinchas no sobrado da casa do Barão do Bananal não dão muita privacidade mas compensam com um serviço que recorre ao olfacto para nos despertar.
Foi por razões como esta que decidimos fazer o desvio em Cunha e sair da rota oficial da Estrada Real. Evitamos a região densamente povoada e pouco interessante junto à movimentada Rodovia Dutra e saboreamos lentamente a rotina do vale histórico do café
Para falar a sério, lentamente talvez não seja um termo muito adequado a esta viagem, não que atinjamos grandes velocidades mas porque aproveitamos literalmente todos os minutos de sol para rodar.
Só com luz podemos apreciar a paisagem que nos envolve e vai variando à medida que vamos para o interior. Uma paisagem que vai passando de tropical luxuriante a mediterrânica e quase alpina, descendo depois para o Sertão mais seco e quente do interior das montanhas de Minas.
Sentimos todas estas mudanças na pele, sentimos o frio dos 2000 metros de altitude da Serra da Mantiqueira, o calor húmido da floresta de Bocaina e a secura quente do sertão mineiro. Tudo no mesmo dia!
Reencontramos a Estrada Real na descida da Serra, precisamente onde ela deixa de ser uma estrada nacional asfaltada e passa a ser um caminho de terra isolado e deserto.
O timming não poderia ser mais perfeito, acabámos de fazer 150 kms deliciosos num asfalto irrepreensível atravessando toda a Serra da Mantiqueira, e agora, precisamente quando começamos a encontrar transito e camiões fugimos para as pistas desertas do Sertão.
E que sertão.... 250 kms sozinhos numa pista maravilhosa que nos leva pelo meio de uma paisagem aqui e ali salpicada de vermelho e amarelo forte. Estamos na época seca, pelos vistos a época preferida de muitas plantas para florescerem.
Não convém é ficar muito distraído com as flores porque a pista tem algumas armadilhas. Os agressivos "Mata-Burros" não descriminam e podem perfeitamente matar outro tipo de animais.
Pelo caminho encontrámos vários morros coberto com plantações de café. Um simpático agricultor ficou de prosa e explicou-nos processo de colheita e preparação antes de ser torrado e moído para deliciar meio mundo.
A variedade de piso é incrível, vales com areia compacta e imaculadamente branca, declives acentuados com enormes lajes de pedra, intercalados por enormes secções de terra vermelha que serpenteiam por entre fazendas e morros a perder de vista.
Temos de confessar que com condições tão boas exagerámos um bocadinho nas velocidades, desenvolvemos até uma técnica de evitar os mata-burros, voando por cima deles.
Fotografar a estas velocidades não é muito sensato... mas muitas vezes a única forma de ficar na fotografia:)
A pista termina em São João Del Rey, nas imediações de Tiradentes, a antiga Vila de São José do Rio das Mortes, renomeada em homenagem ao herói da Inconfidência Mineira
E que bela homenagem, uma pacata e preservada vila colonial, encaixada na base de um enorme maciço montanhoso e repleta de barzinhos e esplanadas convidativas...
hoje ficamos por aqui!
Para Chegar a Paraty percorremos grande parte da estrada Rio-Santos, uma linha de asfalto deliciosa que serpenteia entre um mar azul de um lado e uma exuberante floresta tropical do outro.
Parece que ambos os lados se enfrentam em termos de beleza, a Serra exibe belas cascatas e vegetação densa, a Costa responde com baías idílicas e areais desertos. É considerada uma das estradas mais belas do Brasil.
Paraty é a pérola colonial desta costa, o seu centro histórico preservado repleto de casarões coloridos e ruas empedradas transportam-nos para o seu auge de tempos coloniais.
Hoje Paraty vive noutro auge, o do turismo. Pousadas acolhedoras, lojas cheias de charme e barzinhos animados transformam esta bela cidade no ponto perfeito para explorar a região.
Começa aqui o Caminho Real, recompomos a energia com uma cochinha e um caldo de cana numa das praias de Trindade e começamos a subir a serra.
Os marcos da Estrada Real lembram que estamos no caminho certo, termina o asfalto e por entre uma floresta húmida subimos acima das nuvens até Cunha, já no Estado de São Paulo.
No cume a temperatura desce mas o sol aparece e ilumina os morros da Serra do Mar que nos levarão a outra rota que merece uma visita, o Vale do Paraíba.
Aqui o ouro era de outra côr, negro! Estamos no coração do vale histórico, terra do café e das riquezas que ele proporcionou.
Para chegar ao Bananal, cidade histórica do ciclo do café e ponto de exploração para o Parque nacional de Bocaina, temos mais de 150 quilómetros de estradas de terra desertas onde podemos rodar relativamente rápido
Aqui ficam algumas das fazendas mais preservadas do ciclo do café, Fazendas como a de Boa Vista onde foram rodadas muitas das telenovelas de época da rede Globo,
ou a série portuguesa Equador que deu vida ao romance de Miguel Sousa Tavares.
Nós desta vez vamos ficar no centro histórico do Bananal, o Casarão de cidade que pertenceu ao mesmo barão do café que criou e transformou a Fazenda da Boavista na mais importante da região.
Tão importante que chegou a ter uma linha de caminho de ferro privada entre Bananal e Barra Mansa para escoar o seu café.
O casarão é só nosso, somos os únicos hospedes e temos direito a um quarto que deve ter uns 100 metros quadrados com 4 metros de pé direito. As janelas são enormes e o chão é forrado com madeiras largas que rangem historias de escravos e barões à nossa passagem.
Amanha nós vamos "fugir" da casa do Barão para as montanhas de Minhas Gerais, esperemos que ele não se lembre de nos caçar como fazia com seus escravos "fujões".
É definitivamente presunçoso tentar reunir um best of deste país continente chamado Brasil. A incrível diversidade das terras de Vera Cruz tem obrigatoriamente de ser dividida em várias viagens.
Desta vez optámos por olhar com mais atenção para a região Sudoeste onde encontramos uma das rotas mais históricas do país. A Estrada Real!
Criada pela Coroa Portuguesa no século XVI este conjunto de vias e caminhos tinham o objectivo escoar o ouro e diamantes provenientes do interior de Minas Gerais para a costa Atlântica onde era contabilizado e embarcado para o Velho Continente.
Inicialmente, o caminho ligava a antiga Villa Rica, hoje Ouro Preto, ao Porto de Paraty, mas o trajecto original foi alterado em finais do século XVI para que o escoamento fosse mais facilmente controlado pela Coroa, evitando desvios e o não-pagamento de tributos.
O “caminho novo” passou a ligar Villa Rica ao porto do Rio de Janeiro enquanto que a rota de Paraty passou a ser conhecida como o “caminho velho”.
Devido à grande movimentação de pessoas, mercadorias e riquezas, intensificou-se o processo de povoamento da região, dando origem a vilas e cidades, como Tiradentes, Congonhas e Mariana, criadas à beira do percurso oficial e hoje famosas pela sua bela e preservada arquitectura colonial.
Redescobrir o Caminho Real é o desafio a que nos propomos, não nos vamos limitar a repetir o caminho dos tropeiros, vamos explorar locais pelo caminho que mesmo não fazendo parte do roteiro oficial, merecem uma visita.
Por isso mesmo começamos logo por "inventar" um novo ponto de partida. Começamos a viagem em Trindade, uma península repleta de baías e praias perfeitas a pouca distancia de Paraty.
E como para conhecer o melhor caminho há que explorar muitos, vamos lá...